10 abril 2009

Praga

Viajar é a melhor forma de percebermos quem somos, qual é a nossa maneira de ser, que papel desempenhamos no mundo, e naturalmente, que diferenças temos em relação aos outros países.
Durante a minha passagem por Praga (17-26 Março) apercebi-me de que faço parte de um povo muito diferente dos checos.
Enquanto os portugueses - para o bem e para o mal - são um povo bem-disposto, quente como o clima mediterrânico, e sem medo de fazer estardalhaço onde quer que vão, os checos primam pela sobriedade. Falam pouco - um amigo português confidenciou-me que chegaram a mandá-lo calar num tram - e não esboçam facilmente um sorriso, o que até se entende, se pensarmos que o século XX checo(slovaco) teve nazis e comunistas a tentarem mandar no que não era deles, e que a nação checa só em 1994 pôde seguir o seu caminho em liberdade.
No entanto, o país parece ter-se libertado de todos os jugos. A única coisa que faz lembrar os velhos tempos é o tram, o eléctrico que circula por quase todas as ruas. De resto, Praga não faz lembrar mais nada, é Praga por si só sem precisar de copiar nada de outras paragens. A vista do Castelo desde o rio é magnífica, assim como a vista da cidade desde o cimo do Monte Petrín.
Não existe um desordenamento das construções como se vê em Portugal, onde é possível encontrar um edifício pós-moderno ao lado de uma casa antiga. Em Praga tudo encaixa na sua própria envolvência, desde os museus aos shoppings. Mais importante que isso, é uma cidade limpa, daquelas que faz hesitar em atirar a pica do cigarro. Lá é possível caminhar sem olhar para o chão com medo de calcar uma prenda.
A Praça Venceslau é uma Avenida dos Aliados em ponto grande; o relógio astronómico é mais famoso do que espectacular; o Museu do Comunismo é quase clandestino por ser tão difícil de encontrar, mas vale bem a pena visitar; a Ponte Carlos, apesar de bonita, é também mais famosa do que espectacular; e o Museu Nacional permite conhecer bastante bem a vida na Checoslováquia entre 1900 e a II Guerra.
Voltando à maneira de ser dos checos, outro factor que ajuda à personalidade fechada é o estado do tempo. Enquanto lá estive, a temperatura nunca passou dos 10ºC, e à noite descia até aos -3º com facilidade - embora parecesse menos frio à noite que de manhã. Mesmo durante o dia parece estar escuro, tantas são as nuvens que ameaçam largar água e só largam uma leve morrinha.
No meio de tudo o que visitei - também conheci Liberec e Viena - há uma imagem que me fica, mais que todas as outras: atravessar a Ponte Carlos a caminho da cidade velha debaixo de neve, coisa que nunca tinha experimentado.
Só é pena, regressando às ideias iniciais do texto, que Portugal seja um país quase incógnito no mundo. Nas lojas de recordações - ou deverei dizer antes recuerdos? - da zona turística de Praga os empregados falavam sempre em italiano ou espanhol, mesmo depois de dizer que era português!
E agora não sei como hei-de concluir. Não falei de comida, mas também não cheguei a provar nenhuma especialidade checa, daquelas à base de salsichas.
Gostei do U Fleku, que é caro, mas produz a sua própria cerveja (preta), a melhor que bebi enquanto lá estive - bem melhor que a clássica checa Staropramen.
O balanço final é positivo, Praga aprova, mas o regresso a casa são e salvo é sempre um grande momento. Gostei imenso dos locais que visitei, mas quem me tira o meu país tira-me tudo... ou quase!