14 julho 2010

Taça Vazia

A Liga ainda não firmou novo acordo de patrocínio para a até agora denominada Carlsberg Cup, uma competição criada sob o signo daquela cervejeira, desde o dinheiro até aos cartazes... e ao próprio troféu!
E aqui reside a problemática. Que vai a Liga fazer caso assine com um patrocinador não ligado às cervejas? O troféu descreve-se facilmente como um fino gigante, pelo que se percebe a dimensão do problema.
Teremos agora uma Heineken Cup? Cintra Cup? Cristal? Ou mudam os serviços do patrocinador e muda também o aspecto da taça?

22 março 2010

The Division Bell

Há quem desdenhe dos dois últimos álbuns da carreira dos Pink Floyd, considerando-os mais como discos de David Gilmour que dos Floyd propriamente ditos. É verdade que sem Roger Waters se perdeu muita da vanguarda do passado, mas The Division Bell, de 1994, fecha a carreira de estúdio dos Pink Floyd com chave de ouro.
O título do álbum porventura simbolizará o toque para a separação de uma banda que marcou uma era, mas que nem por isso deixou de se empenhar até ao último segundo da última faixa.
The Division Bell começa com um instrumental, a fazer lembrar o seu antecessor, mas logo dele se distancia, com What Do You Want From Me – a trazer à memória traços de Wish You Were Here e Another Brick in the Wall. Num disco conduzido pela guitarra de Gilmour, de solo em solo, como que a proferir as declarações finais, saltam aos ouvidos Poles Apart e a mais directa Take it Back, o tema mais conhecido.
No entanto, são as três últimas canções que conseguem ir mais longe. A poderosa Keep Talking assume-se como a faixa mais moderna do disco, seguida de Lost For Words e da fantástica High Hopes, que coloca um brilhante ponto final no trabalho de estúdio da banda.
Sem Waters pode não ser a mesma coisa, mas os restantes membros não deixaram os parentes caídos na lama, assinando um epitáfio de luxo para uma banda mítica, sem dúvida merecedora de um final como este.
The Division Bell é um álbum grandioso. Assim como foi grandiosa a digressão, tanto que o registo ao vivo Pulse (1995) – aparição final dos Pink Floyd até à reunião para o Live8, em 2007 – é triplo álbum.

05 março 2010

Invisible Touch

Em 1986, no mesmo ano em que Peter Gabriel lançava So – já visto neste blog – os Genesis regressavam aos discos, onze anos depois da saída do vocalista.
E se Gabriel sempre seguiu um caminho mais alternativo, o resto da banda que integrou o pelotão do rock progressivo nos anos 70 aproximou-se mais das massas, aspecto bem visível no single que dá nome ao álbum, e com isso venderam mais de sete milhões de cópias.
Apesar de ser um disco diferente do posicionamento inicial dos Genesis, em Invisible Touch o teclista Tony Banks mantém-se como a peça-chave do conjunto, a criar, e por vezes fantasiar ambientes sonoros, nomeadamente na longa Domino, e na esquizofrénica faixa de encerramento, o instrumental The Brazilian. Um tema cujo refrão foi usado, durante os anos 90, no anúncio televisivo de ingresso na Marinha portuguesa.
Land of Confusion é um dos pontos fortes do álbum – o vídeo, de fazer inveja à “Contra-Informação”, ganhou um Grammy – a par da leve Throwing It All Away, mas é em Tonight, Tonight, Tonight que mais se notam uns Genesis em forma.
Em tom baladeiro surge In Too Deep, mais próxima do trabalho de Phil Collins a solo, num álbum que rendeu cinco singles, mas que talvez provoque engulhos aos ouvintes mais puristas da banda, quando comparado com registos de outras épocas.

04 março 2010

Live at the Olympia

Este duplo registo ao vivo dos R.E.M. não é um concerto. Como o baixista Mike Mills anuncia antes de ser tocada qualquer nota, “this is not a show”.
Live at the Olympia, de 2009, parece um concerto, mas é antes a compilação dos diferentes temas tocados ao longo de cinco ensaios, gravados em Dublin em 2007, antes da edição de Accelerate.
Entre os 39 temas aparecem nove que entrariam no futuro álbum; olhando às restantes escolhas, os R.E.M. parecem querer deixar claro onde foram buscar a inspiração para as novas criações. A presença de seis faixas de Reckoning (1984), cinco de Fables of the Reconstruction (1985) e outras quatro do EP de apresentação da banda, Chronic Town (1981), indica um regresso aos verdes anos.
Apesar de Live… abranger a quase totalidade de 30 anos de carreira, é interessante como aparentemente todas as músicas parecem vir da mesma época – comparem-se as duas primeiras faixas, Living Well is the Best Revenge/Second Guessing, separadas por 24 anos.
O disco não só revitaliza uma parte do trajecto dos R.E.M. que estava nas brumas da memória, como também recorda algumas pérolas, casos de New Test Leper, Cuyahoga, Electrolite e Drive. Uma categoria onde também figuram Kohoutek, Feeling Gravity’s Pull e Welcome to the Occupation.
Nota também para Disguised, que mais não é que uma versão embrionária de Supernatural Superserious, que viria a ser single de Accelerate.
Live at the Olympia é mais uma visita ao passado, depois de uma colectânea recente, mas o facto de os grandes êxitos estarem arredios do alinhamento torna-o num disco mais para conhecedores do que para leigos dos R.E.M.

19 fevereiro 2010

The Seeds Of Love

Em Setembro de 1989 os Tears For Fears finalmente estavam de volta, depois dos êxitos globais alcançados com Shout e Everybody Wants to Rule the World, quatro anos antes. O seu terceiro trabalho de estúdio foi um parto demorado, fruto da dificuldade em encontrar um rumo depois do sucesso de Everybody…, faixa que com o passar dos anos viria a figurar entre as mais tocadas pelas rádios.
Esse rumo surgiu quando a dupla inglesa conheceu a cantora jazz americana Oleta Adams, que os levaria a largar as sonoridades electro-pop em troca de um estilo mais melódico. O resultado final é um conjunto de canções mais expressivas, mais humanas, com aspectos jazz e até blues – Badman’s Song e Standing On The Corner Of The Third World são um bom exemplo disso.
O single Sowing The Seeds Of Love, soalheiro mas queixoso em relação à política britânica da época, ficou como cartão de visita do álbum, antes de Advice For The Young At Heart, outro dos pontos fortes.
O tema de abertura, Woman In Chains – com bateria de Phil Collins e Oleta Adams a partilhar a voz com o guitarrista Roland Orzabal –, é belíssimo, assim como Famous Last Words, que fecha o disco em tom pensativo.
De passagem, ouvir ainda os lados B dos quatro singles, incluídos na edição remasterizada. Demasiado abstractos para figurar no alinhamento de The Seeds Of Love, mas o instrumental Music For Tables é bem interessante.

15 fevereiro 2010

Love Over Gold

Em 1982, os já extintos Dire Straits surgiam com o seu quarto álbum. Quase um EP, tendo em conta as cinco faixas, mas note-se que todas se prolongam por mais de cinco minutos – algumas, por bem mais.
O relâmpago que compõe a capa de Love Over Gold não significa que seja um disco tempestuoso, mas é indicador de mais nebulosidade que o habitual. Um aspecto que se nota imediatamente, na introdução cortante do fantástico épico de 14 minutos Telegraph Road, faixa cuja letra aplicar-se-ia bem aos tempos de crise que se têm vivido ultimamente.
A tradição de canções-retrato sobre personagens mais ou menos honestas mantém-se neste disco, na intrigante Private Investigations e no tema que dá nome ao álbum.
Também como é apanágio dos Dire Straits, as canções baseiam-se em melodias cuidadosamente construídas, salpicadas pela guitarra de Mark Knopfler, que pode não ter grande voz, mas cujos dedos e cordas são a alma da banda.
Industrial Disease, o tema mais galhofeiro do disco – fala sobre uma empresa em frangalhos – e It Never Rains completam um álbum curto, mas de qualidade.
Love Over Gold vem do tempo em que era possível gravar um disco de cinco músicas, sem singles de dimensão global directamente extraídos, e obter sucesso com o álbum da digressão. O duplo ao vivo Alchemy, de 1984, teve como single a faixa Love Over Gold, em versão mais curta – sem os belíssimos dois minutos finais da versão álbum, claramente a melhor passagem do disco.

No Line On The Horizon

Março de 2009 viu os U2 regressarem com novo disco, quase cinco anos depois de um tiro ao lado chamado How To Dismantle An Atomic Bomb – a crítica adorou, mas eu não fiquei nada convencido.
De volta ao lar, que é como quem diz, às mãos milagrosas de Brian Eno e Daniel Lanois, No Line On The Horizon é um álbum que na primeira audição nos deixa aterradoramente perto de How To Dismantle…, mas que à segunda deixa uma sensação constante de se estar perante o novo Achtung Baby.
Embora o disco não atinja o “músculo” de 1991, faixas como Breathe e Unknown Caller são de se lhe tirar o chapéu – a segunda traz mesmo algumas reminiscências de Talking Heads no refrão.
Note-se o aspecto de a dupla de produtores ser co-compositora de seis temas, facilmente distinguíveis quando comparados com os restantes, escritos exclusivamente pela banda – a já referida Breathe é uma notável excepção. Assim como é notável Magnificent, o segundo single, simplesmente descrito pelo adjectivo que lhe dá título.
No instrumental que antecede a árida Being Born, outras reminiscências aparecem, neste caso de passagens do clássico “heroes” de David Bowie, num álbum que recoloca os U2 no patamar de excelência que várias vezes ocuparam ao longo dos anos.
O ponto negativo do disco vai claramente para… o próprio single de apresentação, Get On Your Boots. Apesar de fazer sentido com o resto se ouvirmos o disco de início a fim, não deixa de ser a trigémea de Elevation e Vertigo, singles ultra-comerciais, a roçar o descartável, mas necessários para suportar as vendas do álbum.
Nestes tempos, nada que impeça levantar o polegar a este No Line On The Horizon, de que vale a pena escutar ainda:
No Line On The Horizon
Moment Of Surrender
Cedars Of Lebanon

[NOTA: post reformulado. Originalmente publicado em 8 Março 2009]

12 fevereiro 2010

Welcome To Wherever You Are

Muitas bandas têm álbuns que apesar de serem bons, passam ao lado dos olhos do grande público. São os chamados álbuns subestimados, aqueles que deixam a sensação de que só nós os conhecemos.
Este álbum dos INXS, de 1992, é um desses casos. Não deixou uma marca tão vincada como Kick, e até mesmo X, os seus predecessores, mas consegue estar acima de ambos.
Welcome… começa de forma bizarra, e evolui por terrenos insinuantes à boa maneira dos INXS, com um ocasional toque épico à mistura, cortesia da Australian Concert Orchestra, em Baby Don’t Cry, e Men and Women.
Pelo meio, nota-se um som mais maduro e inteligente que nos trabalhos anteriores, em Heaven Sent, Communication e no single Beautiful Girl; Strange Desire, uma canção elegante e provocante que depois de enlear o ouvinte ainda vai ao saxofone – mais uma vez os INXS a provarem que nem sempre o saxofone estraga canções –, também merece nota.
Tudo embrulhado na voz sedutora, por vezes sensual do falecido Michael Hutchence.
Há álbuns que mereciam mais reconhecimento, mas por outro lado, se tivessem sido um sucesso bombástico talvez hoje não se tivesse a mesma visão sobre eles. Ouvir ainda:
Not Enough Time
All Around
Back On Line

Violator

Capa em fundo negro, com a silhueta de uma rosa em vermelho ao meio. Pressiona-se “play”, e o que se ouve condiz com os tons negros da capa.
Lançado a 19 de Março de 1990, já com dois singles esmagadores no bolso, Violator consuma tudo aquilo que os Depeche Mode procuraram nos seis álbuns anteriores. É o último claramente electrónico da banda, e aquele em que o quarteto inglês atinge o topo.
World In My Eyes é música de salto alto, com uma classe e uma lucidez pop quase inebriantes. Um passo à frente está a icónica Enjoy The Silence, possivelmente o tema mais bem tirado de toda a carreira dos Depeche Mode. Num disco que contém ainda Policy of Truth – outra faixa bem consciente do seu tempo – e Halo, falar em Personal Jesus soa a chavão.
Este é um disco onde tudo é bem medido. É sóbrio sem ser demasiado brando; completo sem ser demasiado técnico; sombrio, mas com luz suficiente para não parecer pesado demais.
Violator é o melhor disco dos Depeche Mode. Talvez peque pelas escassas nove faixas, e encontrar o tema Dangerous no lado B do single de Personal Jesus faz pensar o que mais terá ficado esquecido dentro das gavetas. Fora delas ficaram ainda:
Waiting For The Night
Blue Dress

Achtung Baby

“Temos que nos ausentar e sonhar tudo outra vez”.
Esta frase foi proferida por Bono num dos últimos concertos da digressão de 1989, quiçá já sentindo estar no final do caminho que os U2 percorreram ao longo dos anos 80. Esse sonho acordou em Novembro de 1991 sob o título Achtung Baby, o difícil e arriscado sétimo álbum.
Novamente com a dupla Eno/Lanois aos comandos depois de um interregno de um álbum, os U2 operam uma revolução sónica e até imagética. O primeiro single, The Fly, marca a ruptura com o passado, através do uso de guitarras quase industriais, ritmo forte e uma atitude combativa como não se via desde Sunday Bloody Sunday.
Num álbum mais introspectivo do que interessado em salvar o mundo, One e Mysterious Ways tornaram-se clássicos, mas Even Better Than The Real Thing e Until The End Of The World merecem sentar-se à sua direita.
O disco perde algum vigor na parte final – o antigo “lado B”. Ainda assim mantém-se brilhante, com Love is Blindness a fechá-lo em tom viajante, mas angustiado, depois de Ultra Violet (Light My Way), um tema que embora já tenha aparecido no topo de votações dos fãs, passou mais de 15 anos sem ser tocado ao vivo.
No seu todo, Achtung Baby é um disco ambicioso, capaz de conquistar ou alienar quem se interessa por U2. Um risco ganho, numa reinvenção bem conseguida. Ainda a ouvir:
Zoo Station
Who’s Gonna Ride Your Wild Horses
Acrobat
[NOTA: este post foi reformulado. Originalmente publicado em 10 Set 2006]

09 fevereiro 2010

4:13 Dream

Por pouco que este álbum se tornava no Chinese Democracy dos Cure. Ou nem tanto…
Com lançamento inicialmente previsto para a Primavera de 2008, o disco apenas saiu no Outono, devido ao atraso nas gravações provocado pela digressão 4Tour, que passou por Portugal em Março desse ano.
A 13 de Outubro, aproveitando o paralelismo da data com o título, e com o facto de ser o 13.º registo de estúdio da banda, era lançado 4:13 Dream, um disco onde os Cure, novamente como quarteto, mantêm a linha traçada nesta década.
A excelente faixa de abertura, Underneath the Stars, surge bem ao jeito de Out of this World – primeiro tema do álbum Bloodflowers, de 2000 – com um mergulho lento e melancólico no “universo Smith”, para depois seguir numa toada mais próxima do álbum homónimo de 2004.
Entre as 13 canções destacam-se The Reasons Why, Switch e The Scream, em que os Cure chegam mais perto do estilo sombrio, às vezes inquieto, que os caracteriza.
No pólo oposto está The Only One – um dos quatro singles editados ao longo do Verão em jeito de compensação pelo atraso no lançamento –, tão primaveril que parece uma cópia descarada do também single High, de 1992.
Em 4:13 Dream os Cure jogam pelo seguro. E é efectivamente isso que faz com que o álbum deixe a sensação de que ficou a faltar um pouco de factor-surpresa, o que não invalida que seja um disco mais que digno, tendo em conta os 30 anos de carreira de Robert Smith e companhia. Outras faixas a escutar:
Sirensong
It’s Over
Sleep When I’m Dead