22 março 2010

The Division Bell

Há quem desdenhe dos dois últimos álbuns da carreira dos Pink Floyd, considerando-os mais como discos de David Gilmour que dos Floyd propriamente ditos. É verdade que sem Roger Waters se perdeu muita da vanguarda do passado, mas The Division Bell, de 1994, fecha a carreira de estúdio dos Pink Floyd com chave de ouro.
O título do álbum porventura simbolizará o toque para a separação de uma banda que marcou uma era, mas que nem por isso deixou de se empenhar até ao último segundo da última faixa.
The Division Bell começa com um instrumental, a fazer lembrar o seu antecessor, mas logo dele se distancia, com What Do You Want From Me – a trazer à memória traços de Wish You Were Here e Another Brick in the Wall. Num disco conduzido pela guitarra de Gilmour, de solo em solo, como que a proferir as declarações finais, saltam aos ouvidos Poles Apart e a mais directa Take it Back, o tema mais conhecido.
No entanto, são as três últimas canções que conseguem ir mais longe. A poderosa Keep Talking assume-se como a faixa mais moderna do disco, seguida de Lost For Words e da fantástica High Hopes, que coloca um brilhante ponto final no trabalho de estúdio da banda.
Sem Waters pode não ser a mesma coisa, mas os restantes membros não deixaram os parentes caídos na lama, assinando um epitáfio de luxo para uma banda mítica, sem dúvida merecedora de um final como este.
The Division Bell é um álbum grandioso. Assim como foi grandiosa a digressão, tanto que o registo ao vivo Pulse (1995) – aparição final dos Pink Floyd até à reunião para o Live8, em 2007 – é triplo álbum.

05 março 2010

Invisible Touch

Em 1986, no mesmo ano em que Peter Gabriel lançava So – já visto neste blog – os Genesis regressavam aos discos, onze anos depois da saída do vocalista.
E se Gabriel sempre seguiu um caminho mais alternativo, o resto da banda que integrou o pelotão do rock progressivo nos anos 70 aproximou-se mais das massas, aspecto bem visível no single que dá nome ao álbum, e com isso venderam mais de sete milhões de cópias.
Apesar de ser um disco diferente do posicionamento inicial dos Genesis, em Invisible Touch o teclista Tony Banks mantém-se como a peça-chave do conjunto, a criar, e por vezes fantasiar ambientes sonoros, nomeadamente na longa Domino, e na esquizofrénica faixa de encerramento, o instrumental The Brazilian. Um tema cujo refrão foi usado, durante os anos 90, no anúncio televisivo de ingresso na Marinha portuguesa.
Land of Confusion é um dos pontos fortes do álbum – o vídeo, de fazer inveja à “Contra-Informação”, ganhou um Grammy – a par da leve Throwing It All Away, mas é em Tonight, Tonight, Tonight que mais se notam uns Genesis em forma.
Em tom baladeiro surge In Too Deep, mais próxima do trabalho de Phil Collins a solo, num álbum que rendeu cinco singles, mas que talvez provoque engulhos aos ouvintes mais puristas da banda, quando comparado com registos de outras épocas.

04 março 2010

Live at the Olympia

Este duplo registo ao vivo dos R.E.M. não é um concerto. Como o baixista Mike Mills anuncia antes de ser tocada qualquer nota, “this is not a show”.
Live at the Olympia, de 2009, parece um concerto, mas é antes a compilação dos diferentes temas tocados ao longo de cinco ensaios, gravados em Dublin em 2007, antes da edição de Accelerate.
Entre os 39 temas aparecem nove que entrariam no futuro álbum; olhando às restantes escolhas, os R.E.M. parecem querer deixar claro onde foram buscar a inspiração para as novas criações. A presença de seis faixas de Reckoning (1984), cinco de Fables of the Reconstruction (1985) e outras quatro do EP de apresentação da banda, Chronic Town (1981), indica um regresso aos verdes anos.
Apesar de Live… abranger a quase totalidade de 30 anos de carreira, é interessante como aparentemente todas as músicas parecem vir da mesma época – comparem-se as duas primeiras faixas, Living Well is the Best Revenge/Second Guessing, separadas por 24 anos.
O disco não só revitaliza uma parte do trajecto dos R.E.M. que estava nas brumas da memória, como também recorda algumas pérolas, casos de New Test Leper, Cuyahoga, Electrolite e Drive. Uma categoria onde também figuram Kohoutek, Feeling Gravity’s Pull e Welcome to the Occupation.
Nota também para Disguised, que mais não é que uma versão embrionária de Supernatural Superserious, que viria a ser single de Accelerate.
Live at the Olympia é mais uma visita ao passado, depois de uma colectânea recente, mas o facto de os grandes êxitos estarem arredios do alinhamento torna-o num disco mais para conhecedores do que para leigos dos R.E.M.